quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

DESEJO...



Desejo que você seja útil, mas não insubstituível. E que nos maus momentos, quando não restar mais nada, essa utilidade seja suficiente para manter você de pé. Desejo, ainda, que você seja tolerante, não com os que erram pouco, porque isso é fácil, mas com os que erram muito e irremediavelmente, e que fazendo bom uso dessa tolerância, você sirva de exemplo aos outros.

Meus lábios ainda sentem o gosto dos teus beijos...meu corpo teima em guardar o perfume das tuas entregas, quando juntavas estrelas aos meus pés, inebriado pelas carícias que minhas mãos descobriam na geografia da tua pele. Entre murmúrios e silêncios, teus desejos paravam o relógio, para prolongar infinitamente a permanência dos meus olhos deitados, sob teus prazeres escondidos. Adivinhava-te, e a cada toque, tua pele rendia-se em confissões de arrepios e tremores...carinhos te vestiam do meu cheiro, enquanto uma nesga da lua, beijava nosso amor. Desenhava atrevidamente o contorno dos teus traços com a ponta dos meus dedos, enquanto teus olhares perdiam-se em declarações inconfessáveis. Como um náufrago, te socorrias das minhas emoções, mostrando-me os caminhos das tuas vontades. Teu olhar de cumplicidade soletrava a fome que sentias dos meus beijos...minha boca andarilha, entreabria-se num ritual de oferenda, mergulhando no poço aveludado das tuas sedes. Nossos corpos amanheciam contando ao sol os segredos e poemas que esculpíamos sob o olhar cúmplice da lua...palavras e sons que se derramavam dos lençóis coadjuvantes dos nossos encontros. Quando te despedias, teus abraços ecoavam por horas à fio entre meus braços. Meus olhos, presos aos teus, seguiam-te até que a noite te trazia em promessa de eternidade...eternidade que durava , apenas até um novo amanhecer! Que importava? Meu coração, banhava-te nas águas verdes do meu mar e eu me vestia do luar que tanto te encantava, para entoar novas notas musicais no teu corpo. Agora, entre nuvens negras preguiçosas, meu coração te busca em saudade...meus pensamentos renitentes não se cansam de estar em ti. Foste sem que teu coração me dissesse adeus, porque só tuas mãos acenaram, como se eu não percebesse nelas também sofrimento! Teus olhos mudos, endereçavam-me uma súplica em tornado. Enquanto partias, tentei unir duas estrelas no céu com um laço de fita, pois era na companhia delas que teus lábios me encontravam! A lua adormeceu minhas esperas, enquanto acordava o sol...ao raiar de um novo dia, percebi que o laço já não ligava estrela alguma!
Fernanda Guimarães



Poema Erótico

***
Teu corpo claro e perfeito.
- Teu corpo de maravilha.
Quero possuí-lo no leito
estreito, da redondilha...

Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa...flor de laranjeira.

Teu corpo branco e macio
é como véu de noivado...
Teu corpo é pomo doirado...

Rosal queimado do estio,
desfalecido em perfume...

Teu corpo é a brasa do lume...

Teu corpo é a chama e flameja
como à tarde os horizontes...

é puro como nas fontes
a água clara que serpenteia ,
que em cantigas se derrama...

Volúpia de água e da chama...

A todo momento o vejo,
teu corpo...a única ilha
no oceano do meu desejo...

Teu corpo é tudo o que brilha
teu corpo é tudo o que cheira ....
Rosa...flor de laranjeira.

(Manoel Bandeira)