
"...como se recupera a paz? Como se encontra a paz? Como se encontra a paz interior se toda a nossa vida foi um eterno combate contra todas coisas, contra todo o tipo de inimigo, visíveis e não visíveis, existentes e não existentes? Como se recupera essa paz, e não se cai numa redoma de vida? Ou seja, o que é que é paz e o que é que aceitação passiva de tudo?A resposta a estas perguntas vai surgindo com os dias, e a distinção entre paz e aceitação passiva faz-se na consciência. A paz é tudo o que está de acordo com a nossa consciência, tudo o que induz serenidade na alma. É preciso ter noção de que é isso o que se procura: paz, serenidade. E portanto, o mundo começa a girar a uma velocidade diferente. Ou, mais exactamente, a nossa percepção das coisas é que ganha uma velocidade diferente. Portanto, no primeiros tempos, tudo parece demasiado lento. Parece que cada segundo demora uma eternidade. E, pior, uma eternidade vazia. São milhares e milhares de segundos a sentir um vazio insuportável. Mas esse vazio é necessário, é imprescindível. Porque é nesse vazio que a alma começará a distinguir sons e cores. Sons e cores que ali estão desde sempre, mas que a alma, no seu ritmo alucinado de percepcionar e de viver, nunca ouviu nem viu. Quando a alma se dá conta destas presenças, começa a deixar de sentir o vazio. E apercebe-se da multiplicidade crescente de coisas que existem ao seu redor e dentro de si. A alma começa a colher os frutos daquilo que parecia uma espera inútil. Mas não era uma espera inútil. Eram os primeiros passos na descoberta de si própria, do seu mundo interior. A alma passará por momentos em que ainda sentira a presença absurda do vazio, mas confiará que se deixar o tempo passar, todas as coisas cairão nos seus lugares, e uma vez mais ela poderá contemplar as cores e os sons de sempre. Então, a alma adquire paz. Porque adquire a certeza das coisas que tem, das coisas que é. E cuida dessas coisas. Com amor, com carinho. Num movimento de si para si e de si para o mundo, porque aos poucos a alma começa a ser capaz de interagir com o que a rodeia, de trocar sons, cores, figuras, sonhos e cheiros, com as almas que a rodeiam. A alma toma conta disto, acarinha todas estas coisas. Quando sobrevem uma noite de tempestade, a alma recolhe-se e dorme. A alma sabe que as tempestades não duram para sempre. E ao amanhecer, a alma descobrirá, incólumes, as cores puras, os sons puros, os cheiros e os sonhos impregnados de uma Beleza original.A paz é isto. A paz é o mundo de dentro. A sua harmonia. E a sua harmonia com o mundo de fora. Porque a alma harmonizada procura sempre o equilíbrio fundamental entre o seu próprio mundo e o mundo que a rodeia, numa troca simbiótica de afectos, de amor, de expressões de Beleza.O caminho da alma é o único para atingir a paz interior. Não existe outro. Este caminho pressupõe a aceitação de muitas coisas. Coisas que, no passado, não aceitaríamos. Mas sucede que não podemos vestir uma roupa nova por cima de uma roupa velha e gasta. Temos que nos desnudar. E os primeiros tempos, os tempos do silêncio vazio, são precisamente os tempos da nudez. Até que a alma se reconhece a si própria, e já não se confunde com as vestes que usou durante anos, por vezes a vida inteira. É tempo de a alma sentir crescer em si o sentido da Beleza. E as vestes que a alma usará deverão ter como único factor decisório esse sentido de Beleza. A alma incorpora a Beleza do mundo e ela própria se torna parte dessa Beleza. A alma aprende o significado de palavras que já conhecia. Mas apreende-lhes um significado completamente novo. A alma aprende a tolerância, a paciência, até mesmo a resignação. A alma aprende um conceito novo: respeito. Por si própria. Pelas outras almas. Por todo o mundo que a rodeia. Ganha uma consciência harmónica, e só será dissonante quando der por si envolvida no combate pelas coisas belas.A alma encontra a paz. E percebe que esta é diferente da aceitação passiva. Porque a alma não está morta ou adormecida. E para espanto de si própria, está cada dia mais viva, mais atenta, mais orientada no sentido da Beleza e da Pureza primordiais. A alma cresceu. E tornou-se criança. Novamente criança. E é apenas assim, da maturidade para a infância, que as almas humanas verdadeiramente crescem e encontram a paz."
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